Tudo sob
controle: instaladas as TV’s do 12 e do 16, regadas as plantas e os espanhóis
do 14 já chegaram. O que me incomoda no momento é o fato de que todos leram
Marx e muito poucos leram Proudhon. Na primeira metade do século XIX o francês
já tinha percebido que o sistema (capitalista industrial da sua época) era tão
imaginário quanto qualquer utopia, ou seja, se fundava sobre premissas completamente
arbitrárias, capazes de gerar contradições absurdas. A mais básica e
persistente é que a riqueza das nações aumenta tanto quanto o número de miseráveis
no mundo. Tudo isso está muito bem explicado no livro “Filosofia da Miséria”. A
questão é explicar pra camareira que ela tem que vir trabalhar e deixar a filha
sozinha em casa (não tem vaga nas creches) porque um determinado número de
pessoas decidiu que toda a economia deveria girar em torno da acumulação e
crescimento das riquezas (deles) tendente ao infinito. Além de explicar isso,
temos que convencê-la de que isso é normal e, principalmente, que não poderia
ser de outra forma. Ou ainda, que a culpa pela situação é dela, que não
estudou, que fez um filho, que mora num lugar onde não tem vaga na creche e,
como alguns gostam de proclamar por aí, que não mobiliza a vizinhança sai pra
protestar na rua. Nesse caso a sabedoria popular não falha: patrão é tudo filho
da puta. Mesmo não sendo de propósito. O problema é o tal preceito básico, que
gerou a necessidade universal de estar de posse, ou ser capaz de levantar, uma
determinada soma de dinheiro para conquistar o direito à existência. Este fato
da vida (gerado pela decisão arbitrária de um determinado número de pessoas)
acaba consumindo a própria existência, na medida em que o sistema se apropria
de praticamente todas as possíveis atividades, mesmo aquelas que seriam
voltadas ao prazer, ao crescimento racional e espiritual, da vida e gera a
ideia da necessidade de adquirir mais riqueza para poder comprar conforto, diversão
e felicidade. Qual seria a solução? Essa é a pergunta, porque eu sou só
porteiro da noite na pousada. Talvez fosse interessante refletir sobre o real
valor das coisas; o que, por sinal meu amigo Proudhon faz muito bem na já
citada obra. Cheguei a pensar que seria propício aproveitar o momento em que
cresce a quantidade de ricos infelizes e vender-lhes qualquer tipo de ilusão. Tipo
tainha congelada dizendo que foi pescada de manhã, vender coisa velha com rótulo
de “vintage”... usar a questão do discurso a nosso favor, já que uma boa parte
da elite não sabe que o sistema só se perpetua pela sua capacidade de
assimilação dos discursos dissonantes, fazendo com que todos se encaixem no
preceito. Seria o caso de usar o discurso deles contra eles enquanto se cria um
desenvolvimento paralelo não baseado no lucro e na competição, mas na harmonia
das contribuições e da cooperação? Vai saber. O que me consola no momento é a
certeza de que a camareira, o jardineiro e o porteiro são mais felizes que o
dono da parada. Disso eu tenho certeza e é daí que nasce a esperança. Feito o
desabafo, partiu pro lanchinho que a Dona Nalva deixou ali e, claro, uma breve
sessão de degustação de ervas aromáticas. Só pra variar, é o cara decidir fazer
alguma coisa, que outra coisa acontece. R$ 200 um táxi daqui até o Balneário Camboriú.
Claro, com a taxa de 10% pro porteiro. Pros gringos é razoável: 80 eurinhos. É isso
que eu tava falando antes: arrepia que os caras pagam e se sentem felizes.
Piada do dia: abaixo do vídeo Legião Urbana – ao vivo em Porto Alegre 1990 –show Quatro Estações foi colocado o seguinte comentário: “O Legião, apesar de
ser liderado por um cara totalmente desequilibrado, se destaca no Rock Nacional”!
(se alguém lembra, na abertura do show no Jockey Club o Renato se apresenta e lá
pelas tantas dispara: “algumas pessoas dizem que sou louco”)→ ATÉ HOJE, MEU!
domingo, 29 de dezembro de 2013
11/06/13
Dia cheio
hoje: dar uma geral no jardim de inverno, instalar a TV no quarto 14, levar a
colega em casa, check-in dos alemães, estudo do período composto, registro de
reservas; e ainda corre o risco de chegar mais um casal e tem que fazer o
translado dos outros colegas. Tem que falar pra turma que o “check-out time is
untill 12h”. Fora isso, é uma merda que tenha parado o Brasileirão. Agora que o
Inter ia engrenar. Parece que a tainha não ta chegando como o esperado. Ou, no
caso aqui da zona, não ta chegando. O que ta bom é o programinha Tuesday da
Putzgrila. Por que essas músicas modernas são fáceis de reconhecer? Pela
chatice? Chatinho sou eu, que chamo as músicas de chatinhas e bla, bla, bla... (é
foda dizer que as músicas dos caras são chatas) → é porque a comparação é RosaTattooada, “O inferno vai ter que esperar”. Foi pro cigarrinho. Será? É o cara
resolver fumar que acontece alguma coisa. Mas a Dona Margarete ta empolgada com
o tratamento VIP. Diz que amanhã vai adentrar o Salão do Café às 8h em ponto.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
10/06/2013
Eu fico feliz
quando vejo a alegria da simplicidade. Ou da opulência de coisas que não custam
dinheiro. E o pior é que a tudo o que consigo pensar de bom a respeito disso se
contrapõe (o já conhecido) discurso de culpa judaico-cristã na sua concepção
atual de produção e consumo. No sentido de que o cara só pensa na alegria da
simplicidade porque o cara é o porteiro da noite. Se não tivesse feliz assim, “tava
fudido, nêgo”. E nessas o cara vai, no joguinho de olhar cada vez (mais) de
fora a situação. Nesse ponto, como normalmente acontece, interrompe-se toda a
linha de raciocínio. É a dúvida de escrever ou não que a viagem é só escrever;
e a tremedeira; e a lembrança constante que tenho que colocar um som: “Whitesnake– Rock in Rio 1985 – Full Concert”. E o próximo é o AC/DC. Pura garra e
dedicação ao Rock’n’Roll. A introdução do AC/DC é de chorar... tu tá é loco! O
AC/DC É BOM PRA CARALHO! Com umas trakinas e um leitinho então... é todo um
processo de aferição do potencial criativo e da capacidade de preencher o turno
laborativo. Esses são os tipos de coisas que se entendem por alegria da
simplicidade. Partiu pro leitinho que isso aqui já virou perda de tempo.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Dia desconhecido
Quem é que
dança sentado na frente da tela do computador? Às 3h14 da madrugada? É, no
mínimo, o tipo de situação interessante. Quando é com os outros é porque são
escravos do sistema. Quando é no do cara é “tentar viver à margem” do sistema.
Como se o mundo (o universo) girasse em torno do umbigo. Mas é quase isso. Ou
pelo menos é a sensação que provoca a combinação de THC e Legião Urbana noJockey Club – Rio de Janeiro – 1990. Fato é que tem funcionado. Afinal, são
3h20, o chimarrão tá frio e eu estou aqui entre imitar o Renato Russo e
escrever o textinho. Esse é bem o tipo que não pode rolar. Não dá pra chegar
num beco sem saída. Tem que acreditar na parada. O Renatão nitidamente tinha
toda a noção do que representa o Rock’n’Roll e do seu próprio papel enquanto
Rock Star. Acreditava na parada. Acho que tá no prefácio do livro do Lester
Bangs: o Rock’n’Roll é o meio para uma mensagem; o problema (começa quando) ele
se torna a própria mensagem. Toda a autenticidade dele vem do fato de ser o
(veículo) do foda-se. Vou subir lá de óculos e bigodinho e quebrar tudo.
Afinal, “dizem que eu sou meio louco. Eu sou o vocalista de uma banda de Rock”.
E tirem suas conclusões. Será que interessa pra alguém saber que agora é 3h39?
Pra efeito de cálculo, saber quanto tempo leva essa viagem toda. Pronto, foi só
falar na viagem que veio o deslocamento de personalidade. Assim tudo fica ridículo.
Menos o Renato olhando brabo pro Marcelo Bonfá, que tá quase furando a pele da
caixa pra tocar “Se fiquei esperando meu amor passar”. Vamo lá, todo mundo!: “cordeiro
de deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós”.... toma na cara
teu senso de culpa judaico-cristão. Briga com o público. Estrela do Rock. “É Legião,
é Legião, olê, olê, olê”. E no fim vai indo, assim como a carteira de Derby.
Porque as coisas têm uma certa lógica. Condizências. Cada objeto condizente com
a situação. É assim que passa. Quase uma hora de intervalo entre um cigarro e
outro.
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